domingo, 25 de novembro de 2012

Eu sei mas não devia

Poema de Marina Colasanti

 

 

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.
E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.
As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.
Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.
Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,
de tanto acostumar, se perde de si mesma.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A vida inteira

Hoje quero escrever para minha mãe.

Não é seu aniversário,nem dia das mães,nenhum dia especial.apenas li um depoimento que minha sobrinha Mariana, jovem de vinte poucos anos,grávida de seu primeiro bebe fez para sua mãe,minha irmã.

Eu fiquei imensamente emocionada e pensei que poderia dizer coisas bem parecidas para você mãe.

Muitos anos se passaram desde o dia que casando sai de sua casa.

Mãe,lembro-me bem de você dando-me conselhos,ensinando-me coisas que eu deveria saber para enfrentar o mundo.

Naqueles momentos eu não dava  muito ouvido ao que você dizia,achava chatice você ensinando-me quando já me achava a tal.

Pensei, como na música que Padre Marcelo canta,que as coisas do mundo não iriam me derrubar.

Comecei a formar minha própria família com o nascimento de  minha primeira filha,achei que seria a mãe perfeita.

Lembro também aqui de seus conselhos e opiniões,agora acrescidas dos conselhos e opiniões de minha sogra.E novamente achando vocês duas ultrapassadas e retrógadas nem me dava ao trabalho de meditar em suas palavras.

Logo vieram as outras duas filhas e minha família linda e perfeita não precisava de sua opinião.

O tempo passou,e com ele fui amadurecendo,e a duros golpes fui vendo que passava por  tudo aquilo que você falava.

As meninas foram para a  Faculdade,formaram-se ,casaram e foram também embora viver  as próprias vidas.

O que mudou? Aparentemente nada,mas sei em meu coração que você estava certa nas coisa que me falava.

Seus conselhos ignorados me são hoje de grande valia pois com o amadurecimento passei a aplica-los e  ver o quanto verdadeiros são ainda hoje.

Todas as vezes que achei-me perto do desespero usei seus ensinamentos para harmonizar minha cabeça e acalmar meu coração.

Você ensinou-me a rezar,acreditar em Deus e herdei de você duas coisas  muito importantes, a fé Nele e devoção a Maria Santíssima.

Mãe,lembra que você falava para sempre rezar pelos meus inimigos e não desejar mal a ninguém?

Custei para aprender mãezinha. Até hoje ainda creio não sei fazer inteiramente isso.Mas a meu favor digo que tenho tentado bastante.

Queria te falar   tanta coisa ainda mãe, mas o espaço é pequeno e corro o risco de me tornar repetitiva.

Vejo você sentadinha em sua cadeira de rodas com a  tranquilidade proporcionada por anos de sofrimento e luta contra o artritismo deformante,e fico pensando quanta coisa já passou diante de seus olhinhos .

Quanto você já vivenciou, se alegrou,foi feliz,sofreu,sorriu e viveu plenamente sua vida.

Muito obrigada por ser minha mãe

Muito obrigada por tudo que você sempre fez por mim.

Muito obrigada pelas coisas que me falou,conselhos que me deu,opiniões que emitiu.

Muito obrigada mãe. Eu te amo muito.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Meu Pai

Hoje você faria 81 anos, e comemoraríamos de forma bem discreta porque  festa não lhe agradava.

Hoje tenho saudades de você.Muita saudade.Ah meu velho,gosto de lembrar-me de suas ironias e brincadeiras , mas lembro mais de como você nos ensinou moral e ética sem mesmo saber o que era.

Seu otimismo e sua garra para vencer  a batalha da vida me inspira até hoje.Também me dá força pra seguir adiante pois quando estou desanimando penso que meu pai não faria isso e sigo com minha luta.

Papai,gostaria de abraça-lo hoje e dizer  parabéns velho Missias,tudo de bom e muitos anos de vida para você.

Não posso mais fazer isso né?

Então homenageio voe com a musica NAQUELA MESA, que embora não fosse você musico,nem tocasse bandolim sei que  os versos sobre como viver melhor cabem perfeitamente aqui.

Então ai vai.

 

Naquela Mesa

Sérgio Bittencourt

Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre, o que é viver melhor.
Naquela mesa ele contava histórias,
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor.

Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã.
E nos seus olhos era tanto brilho,
Que mais que seu filho, eu fiquei seu fã.

Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa no canto, uma casa e um jardim.
Se eu soubesse o quanto doí a vida,
Essa dor tão doída não doía assim.

Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala no seu bandolim.
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim.

Parabéns meu velho pai.Onde quer você se encontre.

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